PARA NÃO ESQUECER
Como forma de homenagear a professora, mestra e educadora Edivanda Maria Teixeira, o Município de Vitória da Conquista batizou a Escola Municipal do Bairro Jardim Valéria com o nome de Edivanda. A inauguração da Escola e sua dedicação foi comemorada com a presença de representantes da família Teixeira. Na época, a professora Heleuza Câmara, Secretária Municipal de Educação, justificou a escolha da dedicação destacando o trabalho incansável de Edivanda em prol de uma educação libertadora e inclusiva, principalmente dos menos favorecidos. Foi lembrado, também, o papel de Edivanda na educação popular, na alfabetização de adultos, na criação das Comunidades Eclesiais de Base e das associações comunitárias.
QUEM ERA EDIVANDA MARIA TEIXEIRA?
Para conhecer um pouco mais sobre essa jovem professora, figura tão humana e tão comprometida com o Evangelho do Reino, indicamos o livro EDIVANDA - uma vida de fé e de muitas lutas de Luis Mosconi (Editora Parábola).
"Em 20 de novembro de 1978, falecia com 35 anos, Edivanda Maria Teixeira, filha de Wanderley de Matos Teixeira e Guiomar de Souza Teixeira, nascida em 05 de outubro de 1943. Desde jovem, Edivanda Maria Teixeira ligou o seu destino ao destino das pessoas humildes. Moça, quase menina, engajou-se no trabalho de alfabetização do MEB - Movimento de Educação de Base, aquele processo de mobilização educativa que seria banido pela ditadura militar imposta furiosamente contra o povo brasileiro em 1964. Sua trajetória de vida foi a do ensino e da luta; ou para usar a palavra do tempo: sua vida era dedicada à conscientização das pessoas. Profundamente cristã, assumia plenamente, ao contrário de outros, que seu papel era o de educar para a liberdade e para a busca de justiça social. Isso a tornou próxima de pessoas que não possuíam compromisso de luta a partir de convicções religiosas, mas determinado por outras motivações. No movimento de nosso povo pela liberdade, pelo conhecimento e pela igualdade social, o dia 20 de novembro de 1978 foi um dia triste, muito triste. Triste sobretudo para aqueles que lutavam, especialmente para os que combatiam junto ao setor progressista cristão e junto aos explorados em difíceis condições impostas pela ditadura militar, muitos se juntaram a partir de motivações diferentes. A motivação presente em Edivanda era cristianismo imbuído de compromisso com a necessidade de romper as amarras que impediam nosso povo de conquistar o saber, a justiça e a igualdade".
ABSURDO!
Alguns meses atrás, fomos surpreendidos com uma notícia que provocou grande indignação em todos nós que conhecemos Edivanda. A Prefeita Sheila Lemos tomou a decisão de implantar o sistema de ensino do Colégio da Polícia Militar na rede municipal de ensino. E qual foi a escola pioneira escolhida para dar início a essa proposta educativa no mínimo controversa? Justamente a Escola Municipal Professora Edivanda Maria Teixeira! Imediatamente, buscamos maiores informações a respeito dessa decisão junto ao Secretário Municipal de Educação, mas, não obtivemos êxito. Várias personalidades se manifestaram sobre o assunto. Destacamos o posicionamento do assessor jurídico da Fundação, Dr. Ruy Medeiros. Enviou uma carta pessoal ao Secretário Municipal de Educação, manifestando sua posição contrária à decisão da Prefeita e sua indignação sobre o projeto de transformar aquela escola em um colégio militar.
A MESTRA NÃO BATIA CONTINÊNCIA (Artigo de Ruy Medeiros)
A mestra chamava-se Edvanda Teixeira. Ela envolveu-se de corpo e alma no trabalho de educação popular. Embora professora da rede pública de ensino e cumpridora de seus deveres de servidora pública, tirava a maior parte de seu tempo em atividades de Educação popular. É que gratuitamente ensinava, na periferia da cidade e na zona rural, a trabalhadores, jovens, donas de casa, desempregados.
Foi a grande educadora, na região, das Comunidades Eclesiais de Base. Seu ensino era problematizador e emancipatório. Todos os envolvidos participavam, a fala de todos era buscada e considerada. A visão crítica das coisas estabelecia-se no auditório e as diversas contribuições sobre o tema em pauta eram discutidas. A liberdade era cultivada.
Grande parte de sua vida transcorreu no período da ditadura militar. A parábola tinha de ser utilizada.
O Município de Vitória da Conquista batizou uma de suas escolas com o nome da educadora. Homenageava-a, reconhecia-lhe o trabalho e queria perpetuar sua memória de educadora para a liberdade, seu método, inclusive (ou sobretudo?).
Agora, circula notícia de que a escola que ostenta o nome da educadora Edvanda Teixeira oferecerá ensino com pedagogia nos moldes de Colégio Militar.
Quem, sem conhecer a história de vida da educadora, Edvanda Teixeira, ver o seu nome inscrito na fachada da escola, que passar a adotar a pedagogia dos Colégios Militares, há de imaginar que era essa a pedagogia de Edvanda Teixeira e a sua memória estará desfeita ou, no mínimo, desnaturada. Todo objetivo de preservar a memória íntegra de uma grande educadora se esvairá. Esse não pode e não deve ser objetivo de homenagem. Não!
MILITARIZAÇÃO DO ENSINO PÚBLICO É A SOLUÇÃO?
Em visita à escola municipal Edivanda Teixeira, para obter maiores informações a respeito deste projeto e buscar entender as intenções da Prefeita ao tomar essa decisão, conversamos com a Coordenadora Pedagógica, a professora Taiana, que nos relatou que existe, naquela escola, um alto índice de evasão escolar e que os professores encontram muita dificuldade em cumprir sua missão educativa. De fato, o Jardim Valéria é um dos bairros mais carentes de Vitória da Conquista e com graves problemas sociais como desemprego, violência e drogas. Parece, então, que a solução é apelar para "o modelo de ensino militar", garantindo com isso a segurança, a ordem e a disciplina. Sabemos do debate a respeito da "escola sem partido" e, agora, a Prefeita Sheila implanta esse modelo de ensino militar. A imagem do Presidente Bolsonaro carregando no ombro uma criança fardada, empunhando uma arma (de brinquedo), está correndo o mundo e chocando quem acredita que "a educação é a saída". Mas, qual educação? E Edivanda o que diria? O que ela faria? Quando o Município de Vitória da Conquista homenageava nossa querida mestra, perpetuava sua memória de educadora para a liberdade, seu método de ensino libertador e, também, sua luta ferrenha contra a ditadura militar que, inclusive, perseguiu e torturou o irmão Elenaldo Celso Teixeira.
A FAMÍLIA TEIXEIRA É CONTRA!
A família Teixeira, bastante conhecida em nossa cidade, tem se manifestado contrária à decisão da Prefeita Sheila. O irmão de Edivanda, Givan Teixeira, ao tomar conhecimento, assim me escreveu: "Discordo inteiramente da decisão da prefeita, pois o trabalho que ela (Edivanda) fez na cidade de Vitória da Conquista foi de conscientização política, contrária totalmente ao universo militar. Nós, como família, vamos protestar contra essa atitude do governo local que vai de encontro aos ideais de EDIVANDA. Seria até melhor tirasse o seu nome ao envés de deixá-lo junto ao que desejam fazer. Quem conhece e viveu a sua obra também por certo discordará de uma ideia tão estapafúrdia desta . É um sinal de alerta por sabermos em que mãos estão hoje os destinos do nosso povo. Pessoas eleitas para destruir a nossa história, a história do nosso povo. EDIVANDA foi perseguida, caluniada e desrespeitada pela linha militar; além do nosso memorável irmão ELENALDO CELSO TEIXEIRA, preso e torturado por essa ala obscura da nossa história brasileira. São essas atitudes que vem nos envergonhando pelo mundo. Peço a quem ainda tiver interesse, familiares, conhecidos e amigos na cidade de Vitória da Conquista, que nos ajudem a combater essa infâmia e desonra ao nome da nossa querida irmã, líder de uma missão tão grandiosa. Obrigado a todos".